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28/09/2009 - 17h05min
VestibulaR 2010
Nota da prova serÁ uma incÓgnita
No cálculo final do resultado do exame, as questões mais difíceis valerão mais do que as questões menos complexas. Mas os alunos não saberão o peso de cada pergunta e, consequentemente, não conseguirão calcular o seu desempenho

Imagine que você tenha resolvido uma prova com 50 questões de múltipla escolha e acertado 20 delas, número igual ao de um colega que também participou do teste. Em alguns dias você recebe o resultado: a sua nota é 30, enquanto a de seu colega é 40. Isso é possível? Com a nova metodologia que será usada na estruturação do Enem, sim. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, levará em conta que tipo de questões o candidato acertou, e não apenas a quantidade de acertos.

Em outras palavras: as questões terão pesos diferentes. O diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Heliton Ribeiro Tavares, explica que a pontuação de cada pergunta será determinada a partir de três características: grau de dificuldade (a questão pode ser fácil, média ou difícil), índice de discriminação (capacidade da questão de selecionar os participantes) e probabilidade de acerto ao acaso (a chance que um aluno tem de, chutando, acertar a questão). Terão peso maior as perguntas mais difíceis, que consigam diferenciar o aluno bem preparado, e que apresentem pequena probabilidade de acerto na base do chutômetro.

O problema é que, no momento do exame, o aluno não saberá quais questões valerão mais pontos. Não adianta somar os acertos nas provas, porque não será possível calcular a nota final. Segundo Tavares, o governo estuda a possibilidade de divulgar os valores dos três parâmetros de cada pergunta após o Enem. “O aluno não conseguirá, sozinho, calcular a sua nota, mas talvez possamos oferecer um programa de computador para que ele tenha ideia de qual é a sua pontuação”, adianta.

Na avaliação do professor de Matemática Emerson Marcos Furtado, do Curso Positivo, os critérios de avaliação ficariam mais claros se o exame trouxesse as questões separadas por peso. Como o número de perguntas é grande e os alunos terão pouco tempo para responder cada uma (menos de três minutos), eles poderiam dedicar mais tempo àquelas que valessem mais.

Já o diretor do Curso Dom Bosco, Ari Herculano de Souza, considera que o fato de o aluno não saber o valor das questões não deve prejudicar a transparência do processo seletivo. “Em uma prova como essa, com características nacionais, é pouco provável que um aluno tenha favorecimento. O importante é que a regra esteja clara e seja igual para todos”, afirma. Para o professor Anselmo Chaves Neto, do Departamento de Estatística da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o exame conseguirá avaliar adequadamente os participantes. “O Enem será muito bem feito por dois motivos: o conteúdo do ensino médio será bem avaliado, pelo grande número de questões, e as questões serão planejadas com rigor”, diz.

Inspiração

O novo Enem será elaborado segundo a Teoria da Resposta ao Item (TRI). O nome pode assustar, mas o governo não está “inventando a roda”. Esse modelo estatístico foi criado no início do século 20 e já é aplicado em provas como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), cuja finalidade é comparar o conhecimento de estudantes de 15 anos de diferentes países. No site criado para tirar dúvidas sobre o Enem (www.enem.inep.gov.br), o Inep afirma que a TRI “garante a comparabilidade das notas entre diferentes edições a partir da calibração do grau de dificuldade das questões”.

Segundo Heliton Tavares, do Inep, cerca de 10 mil perguntas serão pré-testadas para que o Inep calibre o valor de cada uma. Dentro desse banco de questões, o governo selecionará as 180 que vão cair no Enem. “Iremos aplicar cada um desses itens (questões) para mil alunos, das redes pública e particular. Serão estudantes do segundo ano do ensino médio e estudantes de instituições superiores. Não usaremos a população padrão (estudantes do terceiro ano) por precaução, para que os alunos não saibam previamente o que vai cair na prova”, explica.

Tavares afirma que a TRI permitirá comparar o resultado dos estudantes ao longo do tempo. No modelo atual, mesmo que se tente manter a mesma complexidade nos exames de anos diferentes, o grau de dificuldade é sempre variável. Não é possível dizer com precisão se o resultado dos alunos melhorou ou piorou, porque são provas diferentes sendo comparadas. “Com a TRI você consegue comparar as habilidades dos alunos de um ano para o outro. Se a prova de um ano é mais fácil do que a do ano seguinte, aqueles alunos que fizeram a primeira acabam sendo beneficiados”, afirma o diretor do Curso Positivo, Renato Ribas Vaz.

Vaz ressalta que o Inep terá de minimizar não apenas a diferença entre o exame de um ano para outro, mas entre cada prova (Linguagens; Ciências Humanas; Ciências da Natureza; e Matemática) aplicada em edições distintas. “A complexidade de cada área precisa ser a mesma, porque as universidades podem dar pesos diferentes para cada uma de acordo com o curso escolhido pelo candidato”, diz. (MC)

Fonte: Jornal Gazeta do Povo - Caderno Vestibular - NovoENEM - Publicado em 06/07/2009 - Reportagem de Marcela Campos
- Disponível em: <http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vestibular2009/conteudo.phtml?id=902597>

 
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