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POR QUE A FILOSOFIA NO VESTIBULAR?

Em grego, filosofia quer dizer amor à sabedoria, mas esta definição não nos leva muito longe. Prefiro arriscar que filosofia seja um diálogo do ser humano com o mundo que o cerca. Como diria Gouhier, “é a racionalização de um mundo que não é dado imediatamente como racional”. Filosofia é uma atitude de vida, uma forma de comportamento, constitui-se num labor intelectual. É uma atividade intelectual que nos dispõe à mudança de consciência e de sensibilidade, segundo as quais o ser humano pode criar novas razões de coexistência e, além de cidadãos do mundo, sejamos cidadãos do espírito.

Riccieri Ferrari Landucha
 
O contexto do mundo atual impõe um grande desafio: formarmos pessoas com as habilidades necessárias para transformar informação em conhecimento e conhecimento em ações conseqüentes. A velocidade com que são produzidas e repassadas essas informações exige uma forma mais elaborada de apreensão, possibilitando, relacionando-as e delas extraindo tudo aquilo que está implícito, que não podemos ver sem um detimento e aprofundamento maior. As pessoas hoje em dia terão êxito e serão atuantes na medida em que conseguirem interagir autonomamente com o meio em que vivem. E se desejamos uma sociedade mais ética, moral e comprometida com a cidadania, a filosofia é a baliza destes objetivos.
A experiência tem mostrado que crianças e adolescentes, quanto mais cedo começarem, antes serão capazes de desenvolver e dar boas razões para seus argumentos; pensar reflexiva e criticamente sobre as questões é um exercício árduo que precisa ser incentivado desde muito cedo, transformando os educandos em investigadores críticos e interessados. Assim como os filósofos, as crianças se perguntam sobre os fundamentos dos valores e dos conhecimentos humanos. Deste modo, propiciar um processo investigativo de aprendizagem é fundamental para que não se perca essa riqueza de possibilidades.
A importância da Filosofia nos dias atuais está ligada à crise do mundo contemporâneo. No Brasil, em todo lugar, existe um mundo de incertezas. Um mundo de dúvidas que percorre todas as gerações. Certamente, em boa parte, essa crise de hoje acontece em função das grandes transformações que se vive em relação à ciência e aos avanços das novas tecnologias da informação e da comunicação. A crise existe porque as pessoas não têm tempo para pensar e, assim, não conseguem se “dar conta” de que é preciso pensar para não haver crise, criando uma espécie de ciclo vicioso. Talvez um dos lados da crise que enfrentamos seja a ausência do pensamento. Para o século XXI um alerta é colocado: é preciso dar lugar, espaço a algumas coisas, como o respeito entre as pessoas, a valorização da diversidade e do pensamento.
E a filosofia no vestibular? Em medicina e direito? Isso faz sentido? Faz sentido justamente por se tratar de uma Universidade e não de uma escola da área da saúde ou de leis, no caso do Direito. O ensino deve ser global e universal. Não podemos simplesmente fazer ou ensinar ciência, precisamos pensar ciência: para que serve, a quem se destina, quais suas repercussões sociais, antropológicas, éticas, etc. No caso da medicina, por exemplo, as pessoas se esquecem que esta é fundamentalmente uma ciência humana. Em termos de vestibular coloca-se como biológica, mas tem o fim fundamental que é o homem e a saúde desse no seu contexto mais amplo. Ela utiliza avanços tecnológicos e científicos mas, hoje, com a filosofia na medicina, o que se busca é o aspecto humano, o retorno às origens, quando o médico e o paciente eram muito mais próximos.
A introdução da filosofia nos vestibulares e a obrigatoriedade dela, por lei, nos currículos do Ensino Médio, constituem um aspecto muito importante: entender a necessidade da ética e de uma moral estabelecida, permeando todas as relações sociais para o ganho de todos. Deste modo, provavelmente, a filosofia não fará parte apenas da segunda fase dos vestibulares de medicina e direito, como no caso da UFPR. A tendência é que tenhamos uma amplitude bem maior de influência desta disciplina, abrangendo e sendo inserida até mesmo nos currículos de cursos do ensino superior.

Riccieri Ferrari Landucha
Professor de Filosofia do Colégio Martinus Portão
 
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