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POR
QUE A FILOSOFIA NO VESTIBULAR?
Em grego, filosofia quer dizer amor à sabedoria,
mas esta definição não nos leva muito longe.
Prefiro arriscar que filosofia seja um diálogo do ser humano
com o mundo que o cerca. Como diria Gouhier, “é a racionalização
de um mundo que não é dado imediatamente como racional”.
Filosofia é uma atitude de vida, uma forma de comportamento,
constitui-se num labor intelectual. É uma atividade intelectual
que nos dispõe à mudança de consciência
e de sensibilidade, segundo as quais o ser humano pode criar novas
razões de coexistência e, além de cidadãos
do mundo, sejamos cidadãos do espírito. |
O contexto do mundo atual impõe um
grande desafio: formarmos pessoas com as habilidades necessárias
para transformar informação em conhecimento e conhecimento
em ações conseqüentes. A velocidade com que são
produzidas e repassadas essas informações exige uma
forma mais elaborada de apreensão, possibilitando, relacionando-as
e delas extraindo tudo aquilo que está implícito, que
não podemos ver sem um detimento e aprofundamento maior. As
pessoas hoje em dia terão êxito e serão atuantes
na medida em que conseguirem interagir autonomamente com o meio em
que vivem. E se desejamos uma sociedade mais ética, moral e
comprometida com a cidadania, a filosofia é a baliza destes
objetivos.
A experiência tem mostrado que crianças e adolescentes,
quanto mais cedo começarem, antes serão capazes de desenvolver
e dar boas razões para seus argumentos; pensar reflexiva e
criticamente sobre as questões é um exercício
árduo que precisa ser incentivado desde muito cedo, transformando
os educandos em investigadores críticos e interessados. Assim
como os filósofos, as crianças se perguntam sobre os
fundamentos dos valores e dos conhecimentos humanos. Deste modo, propiciar
um processo investigativo de aprendizagem é fundamental para
que não se perca essa riqueza de possibilidades.
A importância da Filosofia nos dias atuais está ligada
à crise do mundo contemporâneo. No Brasil, em todo lugar,
existe um mundo de incertezas. Um mundo de dúvidas que percorre
todas as gerações. Certamente, em boa parte, essa crise
de hoje acontece em função das grandes transformações
que se vive em relação à ciência e aos
avanços das novas tecnologias da informação e
da comunicação. A crise existe porque as pessoas não
têm tempo para pensar e, assim, não conseguem se “dar
conta” de que é preciso pensar para não haver
crise, criando uma espécie de ciclo vicioso. Talvez um dos
lados da crise que enfrentamos seja a ausência do pensamento.
Para o século XXI um alerta é colocado: é preciso
dar lugar, espaço a algumas coisas, como o respeito entre as
pessoas, a valorização da diversidade e do pensamento.
E a filosofia no vestibular? Em medicina e direito? Isso faz sentido?
Faz sentido justamente por se tratar de uma Universidade e não
de uma escola da área da saúde ou de leis, no caso do
Direito. O ensino deve ser global e universal. Não podemos
simplesmente fazer ou ensinar ciência, precisamos pensar ciência:
para que serve, a quem se destina, quais suas repercussões
sociais, antropológicas, éticas, etc. No caso da medicina,
por exemplo, as pessoas se esquecem que esta é fundamentalmente
uma ciência humana. Em termos de vestibular coloca-se como biológica,
mas tem o fim fundamental que é o homem e a saúde desse
no seu contexto mais amplo. Ela utiliza avanços tecnológicos
e científicos mas, hoje, com a filosofia na medicina, o que
se busca é o aspecto humano, o retorno às origens, quando
o médico e o paciente eram muito mais próximos.
A introdução da filosofia nos vestibulares e a obrigatoriedade
dela, por lei, nos currículos do Ensino Médio, constituem
um aspecto muito importante: entender a necessidade da ética
e de uma moral estabelecida, permeando todas as relações
sociais para o ganho de todos. Deste modo, provavelmente, a filosofia
não fará parte apenas da segunda fase dos vestibulares
de medicina e direito, como no caso da UFPR. A tendência é
que tenhamos uma amplitude bem maior de influência desta disciplina,
abrangendo e sendo inserida até mesmo nos currículos
de cursos do ensino superior.
Riccieri Ferrari Landucha
Professor de Filosofia do Colégio Martinus Portão |