02/10/2009 - 14h25min OLIMPÍADAS Rio transforma o sonho olÍmpico em realidade e conquista os Jogos de 2016 Em uma sexta-feira histórica para o esporte brasileiro, candidatura carioca supera as rivais Madri, Tóquio e Chicago na disputa em Copenhague
É impossível prever quais serão os maiores atletas do planeta daqui a sete anos. Possível, sim, é saber em que palco eles vão brilhar: o Rio de Janeiro. Em uma sexta-feira histórica para o esporte brasileiro, os cariocas conquistaram em Copenhague o direito de sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. Até a cerimônia de abertura no Maracanã, serão mais de 2.400 dias. Tempo de sobra para viver intensamente cada modalidade, moldar novos ídolos e, acima de tudo, deixar a cidade ainda mais maravilhosa. Superadas as rivais Madri, Tóquio e Chicago, finalmente dá para dizer com todas as letras: a bola está com o Rio.
Quando o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, abriu o envelope com os cinco anéis olímpicos e anunciou a vitória do Rio, foram duas explosões simultâneas de alegria. Na Praia de Copacabana, a multidão que aguardava o resultado soltou o grito e começou a comemorar sob uma chuva de papel picado. Dentro do Bella Center, os integrantes da delegação brasileira repetiram a festa de forma efusiva. Sem conter as lágrimas, Pelé comandava a celebração, abraçando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes e os esportistas da comitiva. Entre gritos e abraços, difícil era encontrar no auditório um brasileiro que não estivesse chorando.
Enquanto isso, no Air Force One, Barack Obama já voltava para casa, com as mãos vazias e uma decepcionante eliminação na primeira rodada. A população japonesa, em sua maioria contra a candidatura, pôde festejar a saída na segunda fase. Madri surpreendeu e avançou à final, mas não conseguiu emplacar duas Olimpíadas seguidas na Europa. E a vitória brasileira sobre os espanhóis na última rodada veio com sobras: 66 votos contra 32.
Na primeira fase, Chicago foi eliminada com apenas 18 votos. Madri liderou a primeira parcial, com 28, seguida por Rio (26) e Tóquio (22). A segunda etapa já teve o Rio bem na frente, com 46, contra 29 dos espanhóis e 20 dos japoneses, que saíram da briga.
O Brasil, que lutava há mais de uma década pelo direito de sediar os Jogos, ganhou a disputa na lágrima, da mesma forma como costuma festejar suas conquistas em cima do pódio em competições mundo afora. Com uma apresentação marcada pelo tom emotivo nesta sexta-feira, o Rio deu a cartada final para convencer os integrantes do Comitê Olímpico Internacional a plantar o movimento olímpico na América do Sul pela primeira vez. A estratégia funcionou bem.
O Brasil, que lutava há mais de uma década pelo direito de sediar os Jogos, ganhou a disputa na lágrima, da mesma forma como costuma festejar suas conquistas em cima do pódio em competições mundo afora. Com uma apresentação marcada pelo tom emotivo nesta sexta-feira, o Rio deu a cartada final para convencer os integrantes do Comitê Olímpico Internacional a plantar o movimento olímpico na América do Sul pela primeira vez. A estratégia funcionou bem.
A vitória, na verdade, começou bem antes disso. Após duas tentativas frustradas para as edições de 2004 e 2012, o projeto de 2016 teve o mérito de unir as três esferas de governo. Além disso, a comitiva incluiu não apenas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas um rol de astros esportivos como Pelé, Cesar Cielo, Guga e Torben Grael.
Quando foram anunciadas as eliminações prematuras de Chicago e Tóquio, o Rio sabia que teria, na última rodada de votação, um adversário de peso. No relatório técnico do COI, Madri ficou à frente dos cariocas. Na hora da decisão, contudo, os votantes mudaram de opinião.
Quando o Brasil ainda estava na madrugada, começaram as apresentações. A primeira cidade a falar para os integrantes do Comitê Olímpico foi Chicago. O presidente Barack Obama, que tinha chegado algumas horas antes, reforçou o discurso de “uma América de portas abertas para o mundo”. A apresentação foi pragmática e ainda passou por um momento de saia justa, quando o paquistanês Syed Shahid Ali, membro do COI, questionou a dificuldade que alguns estrangeiros têm para conseguir visto de entrada nos Estados Unidos. Enfático, Obama afirmou que acredita num país mais receptivo ao mundo. Mas não terá os Jogos de 2016 para provar a tese.
Na apresentação de Tóquio, o premiê Yukio Hatoyama estava desconfortável por ter que discursar em inglês. Diante da preocupação do COI com o meio ambiente, os japoneses tentaram convencer os votantes de que poderiam fazer os Jogos mais ecológicos da história.
O Brasil entrou em cena na terceira apresentação, batendo na tecla de que a América do Sul merecia a chance de, enfim, sediar o evento. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, chegou a citar o pré-sal como trunfo verde-amarelo. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes reforçaram o elo entre todas as esferas políticas. Mas foi a emoção que deu o tom dos discursos. A jovem Bárbara Leôncio, do atletismo, não conteve as lágrimas enquanto sua imagem aparecia no telão. E o presidente Lula resumiu o espírito da candidatura ao citar a paixão brasileira pelo esporte: “Chegou a hora.”
Madri veio em seguida e surpreendeu. A capital espanhola mostrou um projeto seguro e confiável, até em um de seus pontos fracos: o controle de doping - a comitiva levou a Copenhague uma carta com garantias da Agência Mundial Antidoping (Wada). Com 77% das instalações para 2016 já construídas, Madri apresentou uma candidatura de poucos riscos. “É a decisão segura”, afirmou o presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero.
Em vez da segurança espanhola, venceu a emoção brasileira.
Em vez da segurança espanhola, venceu a emoção brasileira.
OlimpÍada de 2016 serÁ no Rio de Janeiro Com um projeto orçado em R$28,8 bilhões, capital fluminense supera Chicago, Madri e Tóquio. América do Sul sediará os jogos pela primeira vez na história
Após a quarta tentativa brasileira, o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos em 2016. O anúncio oficial foi feito pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) nesta sexta-feira (2), em Copenhague, na Dinamarca.
Com o projeto mais caro, orçado em R$28,8 bilhões, a Cidade Maravilhosa deixou para trás Chicago, eliminada na primeira rodada, Tóquio e Madri, derrotada no turno final. Com a conquista, o Rio será a primeira cidade da América do Sul a receber os Jogos Olímpicos. A experiência brasileira em grandes eventos esportivos é pequena. Apenas a Copa do Mundo de futebol de 1950 e o Pan 2007, no Rio. Com apoio popular, o país terá sete anos para se organizar. Os Jogos Olímpicos serão de 5 a 21 de agosto de 2016. Os Jogos Paraolímpicos ocorrem de 7 a 18 de setembro.
Candidatura ganhou fôlego na reta final
Embora tenha recebido a nota mais baixa na primeira inspeção dentre as concorrentes, no quesito técnico o projeto do Rio foi bem recebido. Um das principais críticas está no item segurança.
Comoção nacional
Como contraponto, esportistas, políticos e artistas se engajaram na campanha brasileira. A participação do governo federal trouxe à campanha ainda um importante incremento político. O presidente Lula incorporou o lobby pró-Rio 2016 à sua agenda. Até mesmo na negociação da compra dos caças militares alinhavados com a França o apoio dos delegados franceses do COI na eleição de sexta-feira teria entrado na pauta. O próprio presidente admitiu ter enviado cartas a cada um dos delegados do Comitê Olímpico Internacional pedindo votos para o Brasil. No discurso, a transformação da Olimpíada em um marco do desenvolvimento do país.
Atletas também participaram do esforço pela candidatura. Pelé passou a semana em Copenhague. Deu entrevistas, participou de eventos com crianças e serviu como cabo eleitoral mais forte junto aos delegados africanos.
O nadador César Cielo, campeão olímpico e mundial nos 50 m livre e mundial nos 100 m livre, teve o papel específico de encontrar-se com o Alexander Popov. Principal nome da histórias das provas curtas de natação, o russo é um dos delegados do seu país.
Até o escrito Paulo Coelho teve sua parcela de participação. Ele participou de pelo menos um almoço e um jantar com mulheres de membros do COI na busca por votos. O autor de "O Alquimista" e "Diário de um Mago", entre outros, prometeu até dar uma cambalhota em Copacabana no caso de o Rio ser escolhido.
Influência de Nuzman e o fantasma do Pan
A indicação também é uma vitória pessoal do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Artur Nuzman. Desde que assumiu a entidade, em 1995, o dirigente trabalha para trazer os Jogos para o Rio de Janeiro. Fracassou na tentativa de organizar as edições de 2004 e 2012. Antes, Brasília havia caído na disputa preliminar por 2000.
Como prova de que o Brasil poderia receber os Jogos Olímpicos, Nuzman articulou a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio. Bem recebido pelo atleta e pelo público, contudo, o evento teve graves problemas orçamentários e de estrutura, que se tornaram um fantasma para a postulação olímpica.
O orçamento original de R$ 400 milhões foi inflado até chegar a R$ 4 bilhões. Mesmo mais caro, não cobriu obras que comporiam o prometido legado para a cidade, como a despoluição da Baía de Guanabara e melhorias nas vias de deslocamento pela cidade.
Algumas instalações apresentaram problemas constantes, como o provisório estádio do beisebol e do softbol, destelhando inúmeras vezes pelo vento.
Ao longo da candidatura a 2016, foi recorrente o discurso no Comitê e no governo de que os erros do Pan serviriam de aprendizado para a Olimpíada.
Projeto inédito com garantias
O vídeo da candidatura do Rio de Janeiro - um passeio aéreo que ressalta as belezas da Cidade Maravilhosa-, expõe também o que o Brasil tentará disfarçar na Olimpíada de 2016. Para criar a apresentação do projeto brasileiro, que foi exibido nesta sexta-feira em Copenhague, foi chamado o cineasta Fernando Meirelles, principal nome brasileiro do cinema mundial. O diretor foi indicado ao Oscar em 2004 pelo filme Cidade de Deus, rodado no Rio.
Os responsáveis pelo projeto brasileiro garantem que as obras serão facilitadas pela realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Elas estariam também integradas aos planos de desenvolvimento da cidade previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).